14, October de 2026

Como conciliar a eficiência da segurança pública com o respeito aos direitos fundamentais? Essa foi uma das questões centrais do 3º Encontro Criminal, realizado no dia 5 de outubro, no auditório da Faculdade Evangélica Raízes. Com a participação de mais de 100 pessoas, entre estudantes, integrantes da comunidade acadêmica e profissionais de diferentes áreas, o evento promoveu uma reflexão sobre os limites e os desafios da inteligência policial militar no combate ao tráfico de drogas.

O palestrante foi Felipe Morais Barbosa, juiz de Direito do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO) e autor do livro Atitude suspeita – a seletividade na atuação da Polícia Militar e Poder Judiciário no combate ao narcotráfico. A exposição reuniu aspectos da experiência jurídica e de pesquisas sobre a atuação policial e judicial, com ênfase na legalidade das abordagens, na produção de provas e nos critérios utilizados para fundamentar diligências.

Entre os temas discutidos, esteve o uso da expressão “atitude suspeita” como justificativa para abordagens policiais, além do papel das denúncias anônimas e das informações atribuídas aos serviços de inteligência na realização de diligências. A palestra também examinou como esses elementos são avaliados pelo Poder Judiciário e quais parâmetros legais e constitucionais devem orientar a atuação dos agentes públicos.

Seletividade penal e garantias constitucionais

Outro ponto central do encontro foi a seletividade na repressão ao tráfico de drogas. A partir de dados e pesquisas apresentados pelo magistrado, foram discutidas questões relacionadas ao perfil socioeconômico das pessoas abordadas e processadas, à distribuição das ações policiais e aos possíveis impactos dessas práticas sobre o princípio da igualdade e a proteção dos direitos fundamentais.

A análise também contemplou a evolução da jurisprudência dos tribunais superiores quanto à necessidade de fundadas razões para determinadas intervenções policiais, incluindo buscas pessoais e domiciliares. Nesse contexto, foram abordados o controle da legalidade dos atos estatais e os critérios empregados pelo Judiciário para avaliar as circunstâncias que justificam essas medidas.

O palestrante compartilhou, ainda, dados de uma pesquisa em andamento sobre o crescimento das menções aos serviços de inteligência nos registros de prisões relacionadas ao tráfico de drogas. A discussão trouxe à tona a necessidade de documentar as informações que fundamentam as diligências, assegurar a confiabilidade dos elementos probatórios e estabelecer mecanismos de fiscalização da atividade de inteligência.

A abordagem considerou todo o percurso da persecução penal, desde o patrulhamento ostensivo e a abordagem policial até a formalização da prisão, o oferecimento da denúncia, a instrução processual e a sentença. A proposta foi estimular os estudantes de Direito a analisar casos concretos de tráfico de drogas à luz do Direito Constitucional e do Direito Processual Penal.

Formação jurídica e controle institucional

Para a professora Cristiane Ingrid de Souza Bonfim, o debate sobre inteligência policial precisa considerar todas as etapas da atuação estatal, especialmente a documentação das informações e a avaliação das provas que fundamentam os processos criminais.

“É fundamental promover, em eventos acadêmicos, reflexões sobre todas as etapas desse processo, desde o patrulhamento ostensivo e a abordagem policial até a formalização da prisão, o oferecimento da denúncia, a instrução processual e a prolação da sentença”, destaca.

Segundo a professora, a fundamentação das abordagens, a confiabilidade dos elementos probatórios e a fiscalização das práticas adotadas pelos órgãos de segurança pública são questões que merecem atenção na formação dos futuros profissionais do Direito.

Cristiane também ressalta a importância do controle institucional dos serviços de inteligência para assegurar sua compatibilidade com o regime democrático. “Essa discussão deve enfatizar o respeito à Constituição Federal de 1988, aos direitos fundamentais e aos princípios que orientam o Estado Democrático de Direito”, afirma.

Ao reunir a experiência profissional de um magistrado e as questões debatidas no meio acadêmico, o 3º Encontro Criminal contribuiu para ampliar a compreensão dos estudantes sobre os desafios jurídicos relacionados à segurança pública e à justiça criminal. “A iniciativa reforçou a importância de uma formação que articule conhecimento técnico, análise crítica e compromisso com os princípios constitucionais”, destaca a coordenadora da Faculdade Raízes, Maxilene Corrêa.

 

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